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Você me vê? Quem são as mulheres da Amazônia acreana e como contribuem com a preservação do meio ambiente

As mulheres amazônicas desempenham um papel fundamental na preservação da Amazônia e na promoção da sustentabilidade na região. Elas possuem conhecimentos ancestrais sobre o manejo dos recursos naturais, sendo responsáveis por garantir a segurança alimentar e o bem-estar de suas comunidades. Além disso, muitas lideram movimentos sociais em defesa dos direitos das populações tradicionais e dos povos indígenas, lutando contra a exploração predatória da floresta e a violação de seus direitos territoriais.

Jamile Lima - Comunidade Carlota

No Acre, podemos destacar algumas mulheres, dentre elas, Jamile Lima, uma jovem liderança da comunidade Carlota, localizada em Cruzeiro do Sul. Há cinco anos, ela está à frente da Associação Agroextrativista São Francisco do Juruá. Quando surgiu a oportunidade de se candidatar, ela não pensou duas vezes! Incentivou as moradoras a comporem uma chapa majoritariamente de mulheres.

As mulheres que trabalham com extrativismo enfrentam diversos desafios, como a falta de reconhecimento e remuneração adequada pelo seu trabalho, dificuldade de acesso a crédito e financiamento, falta de assistência técnica e de infraestrutura adequada, dentre outros. Além disso, algumas chegam a sofrer violência e discriminação de gênero, como assédio sexual, violência física e psicológica, e exclusão do processo decisório. Ao observar a concentração de homens nos locais de liderança, Jamile percebeu que era preciso fortalecer a representatividade das mulheres. Ao se colocar à frente de algo tão importante para o lugar onde vive, ela visa resgatar as mulheres do entorno para serem vistas em posições de protagonismo. A líder relata que na associação sempre houve mulheres, mas nunca em posição de liderança, essa função era exercida pelos homens.


“Hoje, nós somos a voz da associação, mas ainda existe muita resistência e nós estamos lá para resgatar as mulheres da nossa comunidade. É algo novo para os homens, eles nunca viram uma mulher levando a linha de frente da comunidade. Isso para nós foi um marco porque sempre eram os homens que davam as rédeas e hoje não, nós mulheres sentamos e vemos o que é melhor para nossa associação e comunidade”, explica a comunitária.

As mulheres extrativistas em posição de liderança são frequentemente vítimas de machismo e violência de gênero no exercício de suas atividades. O extrativismo é uma atividade econômica que envolve a coleta de bens naturais, como frutas, castanhas e borracha, e muitas vezes é realizada em áreas rurais ou distantes, sem muitas condições ou proteção. Na comunidade Carlota, as melhorias são pensadas para as famílias e manter esses recursos na comunidade é o que inspira Jamile.

“Então, pra mim, é uma conquista. Antigamente, se via os homens à frente de algo na comunidade e hoje nós mulheres estamos lá a todo vapor, tocando pra frente a nossa comunidade e família”, conta.

A líder comunitária destaca qual é o principal desafio que a comunidade enfrenta. O intuito de ativar a associação foi de elaborar projetos com os governantes para que pudessem construir um poço artesiano, porém, a comunidade encontra muita dificuldade em ser ouvido. “Hoje, a nossa luta é pela vinda de um poço artesiano e acredito que todos nós merecemos beber uma água de qualidade”. A construção do poço não é apenas para a comunidade do Carlota, mas também para comunidades adjacentes, complementa Jamile.

É fundamental que as autoridades, as empresas e a sociedade em geral atuem para proteger os direitos e garantir a segurança e a dignidade das mulheres extrativistas, valorizando e reconhecendo o seu trabalho e combatendo todas as formas de violência e discriminação de gênero. Sobre o machismo que enfrenta, a líder comunitária categórica: "Eu nunca deixei me abater por um comentário machista e eu sempre busquei estar em uma posição em que eu mostrasse para as pessoas que eu, por ser mulher, posso estar onde quiser”.

Geovana Castelo Branco - Movimento de mulheres campesinas

Na linha de frente das lutas das mulheres campesinas no Acre, está Geovana Castello Branco, que atua há 15 anos na causa. No estado, o movimento é composto por 159 mulheres e está presente em Rio Branco, Bujari, Porto Acre, Vila Campinas, Jordão e Sena Madureira. A luta das mulheres campesinas é uma história de resistência e de conquista de direitos, uma vez que é no campo que elas vivem, trabalham e enfrentam diversas formas de discriminação e violência, como a exclusão em processos decisórios, a falta de acesso à terra e aos bens naturais, além desvalorização do seu trabalho.

“Lutamos pela autonomia e libertação da mulher de toda e qualquer forma de violência. Somos um movimento autônomo, classista e feminista, lutamos por um projeto de agricultura livre de agrotóxicos, pela preservação do meio ambiente. Nossas águas, sementes crioulas, nossa mãe terra”, exalta Geovana Castelo Branco.

Desde a década de 1980, as mulheres campesinas se organizaram em movimentos sociais para lutar por seus direitos e reivindicar políticas públicas que atendam às suas demandas. Elas são protagonistas na luta pela agroecologia (ciência que fornece os princípios ecológicos básicos para o estudo e tratamento de ecossistemas tanto produtivos quanto dos bens naturais) e pela preservação do meio ambiente, defendendo uma agricultura sustentável e livre de agrotóxicos.

“Defendemos a agroecologia, o orgânico, pois sabemos da importância de se produzir alimentos saudáveis e saber o que comer e o que colocamos na mesa dos consumidores. Plantamos vida e saúde”, diz Geovana.

Em complemento a tudo isso, elas atuam na produção de alimentos saudáveis e na valorização da cultura e dos saberes tradicionais, contribuindo para o fortalecimento da agricultura familiar e para a construção de um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável.

“Somos responsáveis por uma grande parte da alimentação que vai para a mesa dos brasileiros, plantamos e produzimos de forma sustentável, pois acreditamos que a terra é o solo sagrado e a terra é nossa mãe e temos que preservá-la”, defende.

A luta das mulheres campesinas é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde todas as pessoas tenham acesso aos seus direitos e às oportunidades de desenvolvimento. É necessário que o Estado e a sociedade reconheçam o papel dessas mulheres no campo e atuem para garantir a sua segurança, o seu acesso à terra e aos bens naturais de qualidade.

“No último governo, os nossos direitos foram retirados. Não houve incentivos ao fortalecimento da agricultura familiar no governo Bolsonaro. Com a liberação de vários agrotóxicos, a luta se fez mais necessária, pois temos que defender mais ainda o meio ambiente e mostrar a importância da produção agroecológica para preservação da vida”, acredita.

As mulheres desempenham um papel fundamental na preservação do meio ambiente, tanto em nível global quanto local. Elas são frequentemente responsáveis ​​pelas atividades de subsistência e agricultura em comunidades rurais, o que as torna importantes guardiãs da terra e do que existe nela. Além disso, as mulheres são mais atingidas pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental, logo é urgente que suas ações em prol do bem-estar de suas comunidades e coletivos sejam reconhecidas.