Blog

CEO de empresa de petróleo irá presidir a COP 28 nos Emirados Arábes

Os Emirados árabes conseguem, em via midiática, transparecer tudo que a riqueza existente no mercado petroleiro consegue conquistar. Prédios a tirar de vista, carros de luxo, residências trabalhadas em ouro e uma série de outros fetiches financeiros. Como se já não bastasse, agora fortalecem seu papel para o jogo do “fetiche climático” enquanto meio de garantir a centralização de oportunidade econômicas disfarçadas de estratégias de mitigação climática sem “atacar o progresso”, como dito pelo CEO da Empresa Nacional de Petróleo dos Emirados Árabes, Sultan Ahmed Al Jaber, que irá presidir a COP28 em Abu Dhabi.

O Sultan Ahmed Al Jaber, CEO da empresa petrolífera Abu Dhabi National Oil Company, foi nomeado presidente para a COP 28 e será, ironicamente, o responsável por orientar as negociações voltadas a mitigação climática, ou seja, em outras palavras, é quase “dar uma arma a um assassino”. A decisão fortalece a tendência da realização de eventos voltados para tratar a questão climática sejam sediados em regiões geograficamente distantes dos principais territórios afetados por eventos climáticos de modo empírico, além de tender a ser presidido por atores que sobrepõe interesses econômicos acima da preservação, conservação e equilíbrio ambiental.

Em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, foi consolidada a tentativa de que os representantes de 179 países conseguissem criar meios legais para consolidação de atividades econômicas que estivessem baseados no desenvolvimento sustentável e no fortalecimento da agenda climática e ambiental global. Resultado disso, foi aprovada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

A Conferência das Partes (COP) é um órgão supremo da Convenção – Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) criada com o objetivo central de debater com autoridades governamentais, cientistas e representantes da sociedade civil, conjuntamente, metas e estratégias para neutralizar emissões de gases de efeito estufa (GEE) em uma tentativa de combater os efeitos das mudanças climáticas.

No entanto, se formos fazer uma fria avaliação referente a avanços concretos no que diz respeito a tentativa de mitigar as mudanças climáticas, seguimos o mesmo modelo econômico que viola direitos territoriais de comunidades tradicionais e florestas centrais para conservação da biodiversidade, do que de fato a concretização de ações mais concretas resultantes dos acordos voltados para Governança Ambiental Global.

Ainda que hajam avanços significativos originados das COP’s, esses não alcançam a ambição necessária se formos considerar a gravidade e urgência de respostas na tentativa de consolidar projetos para mitigação, adaptação e compensação diante da atual crise climática. Mas muito mais que respostas e compensações, ainda nos falta conversar sobre uma justa responsabilização aos principais agentes poluidores.

Coincidência ou não, os principais agentes precursores das ações de industrialização que nos levaram à atual crise climática, tendem a estar concentrados no Norte Global, protagonistas do modelo destrutivo do capitalismo, e sempre os primeiros na fila para receber e presidir encontros que debatem soluções climáticas.

Estamos falando, em termos geopolíticos, da centralização da tomada de decisões sobre mitigação climática nas mãos dos que mais contribuíram para que ela se consolidasse, neste caso, países do Norte Global que impuseram, historicamente, para o Sul Global, sua dinâmica de industrialização e consumo enquanto meio de superar a manutenção da biodiversidade e seus povos, até então, considerados um “atraso” para o desenvolvimento econômico do mercado mundial e que agora colocam em nossas mãos a necessidade de aplicar e consolidar modelos de recuperação sem comprometer o atual modelo econômico.

Ao fazer uma análise sobre a avaliação de financiamentos para a biodiversidade na América Latina e Caribe, Castro, Locker com Russel, Cornowell e Fajer, apresentaram em seu estudo sobre a necessidade óbvia e elementar de agências doadoras conhecerem sobre as atividades que as próprias apoiam.

É fundamental que tenhamos em mente sobre a necessidade de investimentos para conseguir consolidar modelos e políticas sustentáveis a médio e longo prazo, mas para fornecer uma avaliação positiva de impacto, é fundamental nossa capacidade em considerar, de maneira crítica e autocrítica, que não é mais possível tratar sobre emergência climática sem tratar o atual modelo em um viés da justiça climática, tendo em vista vincular um desenvolvimento centrado no humano, guardando os direitos de pessoas mais vulneráveis no âmbito da partilha de responsabilidades e benefícios das mudanças climáticas.

Já não é de hoje que a incoerência espacial toma conta de conferências sobre o clima ou biodiversidade mundo afora, sempre com uma tendência a estarem centralizadas em países do norte global, europeus, de população majoritariamente branca, contando com uma participação focada em uma elite que está muito mais disposta a manter o modo de poluição oferecendo modelos de compensação do que discutir políticas concretas que possam trazer melhoras ao modo de vida da humanidade a longo prazo com maior consolidação.

A COP que nos espera ao final de 2023 tende a não ser muito diferente, afinal parece que entramos em um vício de convidar cada vez mais atores que estão desconectados, em essência, ao que deveria ser prioridade em um encontro com tamanha magnitude, mas que vem se tornando ao longo dos anos um encontro para o grande setor multinacional do empresariado, em uma busca constante de garantir o seu selo de política ou climaticamente corretos, desconsiderando uma participação concreta em espaços decisórios de comunidades de base, comunidades locais, tradicionais, povos indígenas que de fato conheçam a realidade, prioridades e necessidades de seus territórios.

O Comandante do movimento libertador campesino do México, Galeano, já dizia: “A civilização é apenas um álibi frágil para uma destruição brutal. O veneno segue brotando e o sistema inteiro parece disposto a intoxicar até o último canto do planeta, porque é muito mais rentável a destruição e a morte do que deter a máquina”.

2023-01-31 16:49